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Como chegar a Ushuaia de carro: 3 rotas saindo do Brasil

Três rotas pra ir de carro do Brasil até Ushuaia, com paradas obrigatórias, tempo estimado e dicas reais pra cada caminho

Rangel Machado·
Motorhome rodando sozinho na Ruta 40 com o maciço do Fitz Roy nevado ao fundo, Patagônia argentina

Ushuaia é a "cidade mais ao sul do mundo" — e dirigir até lá saindo do Brasil é um sonho que cabe em férias longas, sabático curto ou aposentadoria com tempo. A boa notícia: existe mais de um caminho. E cada caminho conta uma história diferente. A gente reuniu as 3 rotas mais usadas por overlanders brasileiros, com as paradas que valem a pena, os pedaços de asfalto e os pedaços de ripio (estrada de terra), e o que esperar de tempo e burocracia.

Resumão: dá pra ir pela costa atlântica argentina (mais rápido e asfaltado), pela Cordilheira via Ruta 40 (mais cênico no lado argentino) ou misturando Carretera Austral chilena com a Ruta 40 (a mais bonita e a mais longa). Todas terminam no mesmo lugar: a travessia de balsa no Estreito de Magalhães e a chegada na Tierra del Fuego.

O que toda rota tem em comum Independente do caminho, três coisas valem pra todas:

Você atravessa pelo menos 3 países: Brasil, Uruguai (opcional) ou Argentina, e quase sempre o Chile no trecho final. A travessia do Estreito de Magalhães é obrigatória. Não tem ponte. É uma balsa que sai de Punta Delgada (ARG) ou de Punta Arenas (CHI) e leva uns 30 a 45 minutos. Reserva ajuda, mas não é sempre necessária. A Tierra del Fuego se entra pelo Chile, sai pelo Chile, mesmo indo pra Ushuaia (Argentina). Isso significa duas aduanas no mesmo dia. Carro precisa estar com documentação em dia e seguro Mercosul ativo.

E uma coisa que ninguém te conta: o vento na Patagônia é uma força da natureza, não exagero. Rajadas de 80 a 100 km/h são rotina. Isso afeta consumo, conforto e tempo. Planejar trechos curtos perto de El Calafate e na Tierra del Fuego é mais inteligente do que tentar fazer 600 km num dia. Rota 1: Atlântica — a mais rápida, quase toda asfaltada Sai do Brasil pelo Chuí (RS), atravessa o Uruguai (ou entra direto na Argentina por Paso de los Libres, dependendo de onde você está), pega a costa atlântica argentina e desce. Caminho: Brasil → Uruguai (opcional) → Buenos Aires → Mar del Plata → Bahía Blanca → Viedma → Puerto Madryn → Comodoro Rivadavia → Río Gallegos → balsa → Tierra del Fuego → Ushuaia. Tempo de estrada: uns 12 a 14 dias rodando ritmo confortável (300 a 500 km/dia) só pra ida. Pra ida e volta sem repetir rota, conta de 30 a 40 dias. Dica importante: essa rota também funciona muito bem como caminho de volta pra quem foi pela Ruta 40 ou pela Carretera Austral. Como ela é a mais rápida e asfaltada, você economiza 1 a 2 semanas no retorno e ainda mata regiões que não viu na ida (Península Valdés, costa atlântica). Pra travessias longas, fazer rota 2 ou 3 na ida e rota 1 na volta é o combo mais usado por quem já fez. Paradas que valem a pena:

Mar del Plata pra dormir, comer bem e respirar litoral. Península Valdés (perto de Puerto Madryn) — temporada de baleias-franca de junho a dezembro, pinguins, elefantes-marinhos. Cobra entrada e exige veículo pra circular dentro da reserva. Bosque Petrificado (Santa Cruz) — uma cápsula do tempo de 150 milhões de anos no meio do nada. Río Gallegos — última cidade grande antes da travessia pro Estreito de Magalhães. É onde você reabastece tudo: combustível em postos de bandeira (YPF, Shell), supermercado grande pra estocar mantimentos que vão durar até Ushuaia (e na Tierra del Fuego os preços disparam por causa do isolamento), borracharia se algum pneu deu sinal na descida e oficina mecânica de verdade se algo travou. Depois de Río Gallegos as cidades viram vilarejos pequenos com opções limitadas até Río Grande, do outro lado da travessia.

Por que essa rota: asfalto quase todo, postos de gasolina razoáveis, sinal de celular na maior parte. É a opção mais segura pra quem está testando viagem longa de carro pela primeira vez. Pega menos a essência da Patagônia. Se você quer Cordilheira e geleira, essa rota não entrega — ela entrega o oceano. Rota 2: Cordilheira pela Ruta 40 — a mais cênica do lado argentino Entra na Argentina pelos passos do norte (Paso de los Libres, Bernardo de Irigoyen ou direto por Foz do Iguaçu), desce em direção a Mendoza e cola na Ruta 40 — a estrada mais longa da Argentina, com 5 mil quilômetros do norte ao sul. Caminho: Brasil → Argentina norte → Mendoza → San Carlos de Bariloche → El Bolsón → Esquel → Perito Moreno (cidade) → El Calafate → El Chaltén → Río Gallegos → balsa → Ushuaia. Tempo de estrada: 18 a 22 dias só ida, com paradas decentes. Round trip confortável: 45 a 60 dias (e cai pra 35-45 se você voltar pela rota Atlântica). Paradas que valem a pena:

Mendoza — vinícolas, asado, base pra cruzar pra Chile se quiser fazer um detour por Santiago. Bariloche e a Rota dos 7 Lagos — clássico turístico, mas merece. Outono (abril/maio) tem cores absurdas. Cueva de las Manos (Santa Cruz) — pinturas rupestres de 9 mil anos, Patrimônio da UNESCO, num cânion no meio do nada. Glaciar Perito Moreno (Parque Nacional Los Glaciares) — um dos poucos glaciares do mundo que ainda avança. Vai num dia de sol e fica pra ver os blocos caindo. El Chaltén — capital nacional do trekking, base do Cerro Fitz Roy. Mesmo se você não trilha, vale dirigir até lá.

Por que essa rota: te dá a Patagônia argentina inteira, com geleiras, montanhas e estepe. É o "roteiro clássico" que aparece nas fotos. Cuidado: trechos da Ruta 40 ao sul de Perito Moreno (cidade) têm ripio pesado e postos de combustível espaçados em 200+ km, muitos deles sem combustível disponível no fim do dia ou fechados fora do horário comercial. Sinal de celular some por longos intervalos. Encha o tanque sempre que aparecer um posto cheio, mesmo que você ainda tenha um terço — esperar pra abastecer 50 km na frente é como você fica a pé. E calcula sua autonomia por baixo: o vento da Patagônia derruba o consumo facilmente em 30%, o que parecia 600 km de tanque cheio vira 420. Rota 3: Carretera Austral + Ruta 40 — a mais bonita e a mais longa Essa é pra quem tem 60 a 90 dias e quer rodar a paisagem mais selvagem do continente. Combina o lado chileno da Patagônia (Carretera Austral) com o lado argentino (Ruta 40), porque a Carretera Austral termina em Villa O'Higgins e não tem continuidade rodoviária pro sul — você precisa voltar e cruzar pra Argentina. Caminho: Brasil → Argentina → cruza pra Chile (Bariloche → Puerto Montt) → Carretera Austral (Puerto Montt → Chaitén → Coyhaique → Villa O'Higgins) → volta pro norte e cruza pra Argentina por algum passo (Río Mayo, Coyhaique-Perito Moreno) → Ruta 40 sul → El Chaltén → El Calafate → Río Gallegos → balsa → Ushuaia. Tempo de estrada: 30 a 40 dias só de ida com paradas honestas. Round trip: 70 a 90 dias (e cai pra 55-70 com volta pela Atlântica). Paradas que valem a pena:

Parque Pumalín — floresta valdiviana, vulcões, fjords. Doação de Doug Tompkins, hoje patrimônio chileno. Parque Queulat — o Ventisquero Colgante (geleira pendurada num precipício) é cena de filme. Capillas de Mármol (Marble Caves) — cavernas de mármore esculpidas pela água do Lago General Carrera. Só de barco. Outra cena de filme. Villa O'Higgins — fim de estrada. Literalmente. A partir daqui pra continuar pro sul tem que pegar ferry e trekking sem carro (pedestres atravessam pra El Chaltén, carros não). Lago O'Higgins — o ponto onde a Carretera Austral acaba.

Por que essa rota: ninguém que faz se arrepende. A combinação de fiordes, geleiras, florestas temperadas e estepe é única no mundo. Cuidado dobrado: ferries chilenos na Carretera Austral exigem reserva com antecedência (semanas, na alta temporada). Combustível é mais raro ainda do que na Ruta 40. E sair de Villa O'Higgins de carro significa voltar pelo mesmo caminho até onde dá pra cruzar pra Argentina. Documentação e burocracia — o mínimo pra não tomar susto Pra qualquer das 3 rotas, tenha:

Passaporte (cédula de identidade serve só Mercosul, mas passaporte simplifica). CNH internacional ou CNH brasileira válida + tradução (boa prática). CRLV original do carro (não vale cópia em alguns postos). Autorização de saída do país com firma reconhecida, se o carro não está no seu nome. Seguro Mercosul (Carta Verde) obrigatório. Triângulo, colete refletivo, extintor e cones de segurança — Argentina e Chile cobram isso em blitz.

Atravessar fronteira é tranquilo na maioria das vezes — 30 minutos a 2 horas, dependendo do posto e do horário. Os passos pequenos da Cordilheira são bem mais rápidos que Paso Cristo Redentor ou Chuí, que têm fila histórica. Qual escolher? Se sua janela é 3 a 4 semanas: rota 1 (Atlântica). Você chega, vê o essencial e volta. Se sua janela é 6 a 8 semanas e você quer a Patagônia "de cartão postal": rota 2 (Ruta 40) na ida, Atlântica na volta. Geleira, El Chaltén, Bariloche. Se sua janela é 2 a 3 meses e você quer paisagem que pouca gente vê: rota 3 (Carretera Austral combinada) na ida, Atlântica na volta. É a mais cansativa, a mais cara em combustível e ferry, e também a mais inesquecível.

Tá planejando a sua? O GT Overlander te ajuda a montar o roteiro, com waypoints validados pela comunidade no caminho — postos, campings, oficinas e tudo que precisar para sua viagem ser ainda mais inesquecível

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